Aula 07: A poesia palaciana
 

Os novos tempos trouxeram mudanças também para a poesia do Humanismo. A principal transformação foi que a poesia deixava de ser cantada para ser lida ou declamada. Precisava, para isso, de novos procedimentos artísticos. Para conferir intensa musicalidade aos versos, os autores (nobres que escreviam para outros nobres sempre no ambiente dos palácios) os estruturavam em redondilhas menores ou maiores (de 5 ou 7 sílabas respectivamente). As redondilhas (especialmente as maiores) são medidas muito melodiosas, que tornam os versos redondos, cantados. (O melhor exemplo que temos na Literatura Brasileira são os versos da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias)

Os temas da poesia palaciana vão dos religiosos aos satíricos, passando pela poesia dramática, didática, heróica e lírica.

A poesia lírica conserva, ainda, um pouco das cantigas de amor em que a dama continua inatingível. A mulher é vista como modelo da perfeição: longos cabelos louros, olhos azuis ou verdes, pele delicadamente rosada, serena, discreta e elegante. Nesse sentido, percebia –se, na poesia palaciana, um pouco da influência de Dante e Petrarca (poetas italianos), que seriam marcantes no Classicismo.

A poesia palaciana é tida como inferior em relação à poesia produzida antes e depois. Foi colecionada no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, que nele figura como poeta e organizador. Entre as causas do empobrecimento da poesia no Humanismo estão:

• a dinastia de Avis, pouco requintada;
• o espírito comercial e o enriquecimento da burguesia;
• as mudanças formais do texto;
• a pobreza dos temas palacianos (modismos, festas etc.)

 
Leitura
 

Texto 1

Cantiga

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes
tam fora d’esperar bem,
que nuca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Castelo Branco, João Roiz de.
In: Antologia da poesia portuguesa.op.cit., p.742

Texto2

Cantiga

Acho que me deu Deus tudo
para mais meu padecer:
os olhos - para vos ver,
coração - para sofrer,
e língua para ser mudo
Olhos com que vos olhasse,
coração que consentisse,
língua que me condenasse:
mas não já que me salvasse
de quantos males sentisse.
Assim que Deus me deu tudo
para mais meu padecer:
os olhos para vos ver,
coração para sofrer,
e língua para ser mudo.
Souza, Francisco de. In. Spina Segismundo. Presença da literatura portuguesa Era Medieval, 4ª ed. S. Paulo, Defel, 1971.p.136


Atividades
 

1- Os dois textos apresentados caracterizam-se por uma melodia bem própria aos temas tratados. Os poetas (notadamente o autor do texto 1) trabalham o ritmo das palavras, a rima, a métrica. Faça a contagem de sílabas poéticas dos primeiros versos de cada texto. Qual a métrica utilizada?

2- Você diria que o texto 1, por sua temática, aproxima-se mais das cantigas de amigo ou de amor? Justifique.

3- Nas cantigas do Cancioneiro Geral, há uma constante que chama a atenção do leitor: os olhos do homem apaixonado. Nos dois textos apresentados, qual o significado dos olhos, o que eles representam, qual o papel desempenhado pelos olhos em relação ao sofrimento amoroso? Explique.

4- Explique o verso “língua que me condenasse” dentro do contexto da cantiga de Francisco de Souza (texto2).

 


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