Aula 09: Literatura de Informação
 

Enquanto na Europa vivia o brilho do Renascimento, o Brasil era descoberto ou “achado” e começava a ser colonizado, dando continuação ao plano de expansão ultramarina de Portugal.

O “achamento” do Brasil se deu num período de transição entre o fim da Idade média e o começo do Renascimento. Nesse momento, fomos, então, influenciados por estas épocas e reproduzimos, num certo sentido, uma visão medieval, enquanto que, por outro lado, fomos fruto de uma empreitada renascentista.

O homem da Idade Média vivia limitado pela ignorância, pelo temor de Deus. Por outro lado, o homem do Renascimento, consciente do seu valor, da sua capacidade, não se cansava de experimentar, ousar, descobrir, reinterpretar, colocando-se como o centro das atenções.

Assim sendo, nossa primeira cultura foi a dos jesuítas, uma cultura tradicionalista e apegada à religião - como na Idade Média. Mas em meio à exuberância de nossa paisagem, era impossível não sentir uma enorme vontade de ser livre, de se aventurar, de ousar e de experimentar, como os homens do Renascimento.

Os portugueses que aqui chegaram tinham, então, duas preocupações: a conquista material, resultante da política das Grandes Navegações, e a conquista espiritual, ainda ligada ao Teocentrismo medieval.

Essas eram, também, as duas preocupações literárias: a literatura informativa, com os olhos voltados para as riquezas matérias (ouro, prata, ferro, madeira, etc.) e a Literatura Jesuíta, voltada para o trabalho da catequese.

Não podemos dizer que, nessa época, houve um período ou movimento literário no Brasil; o que podemos recolher desse momento são as manifestações Literárias correspondentes à introdução da cultura europeia em terras brasileiras. Analisaremos desse período uma literatura ligada ao Brasil e que expõe as ambições e as intenções dos europeus.

Fora a Carta de Pero Vaz de Caminha, que foi considerada o primeiro documento da literatura no Brasil, as primeiras crônicas informativas pertencem à segunda metade do século XVI, uma vez que o Brasil só começou a ser colonizado em 1530. A Literatura Jesuítica, do mesmo modo, só foi produzida no Brasil em 1549.

A Literatura Informativa

A literatura informativa era um relato da vida dos colonos, um levantamento da “terra nova”, de sua flora, fauna, de sua gente. Eram textos descritivos, sem nenhuma preocupação literária; no entanto, constituíram uma fonte de grande valor histórico. Num tom que, às vezes, parece propaganda da terra para atrair investimentos, percebia-se já um certo orgulho, que, mais tarde, daria aos textos românticos um tom ufanista.

Esse tom de exaltação da terra mostrava o assombro do europeu - por tantos séculos limitado ao seu pequeno mundo conhecido - diante do exotismo e da exuberância de um mundo tropical. A linguagem desses textos abusa dos adjetivos, quase sempre empregados no superlativo.

Entre os textos de origem portuguesa, destacam-se:

• A Carta de Achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, o Venturoso (1500); o original está na Torre do Tombo.

• o Tratado da Terra do Brasil (1537, editado em 1826) e História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos de Brasil (1576), ambos de Pero de Magalhães Gandavo, descendente de flamengos, historiador, humanista, professor de latim e amigo pessoal de Camões.

• O Tratado Descritivo do Brasil (1587), de Gabriel Soares de Souza, que aportou na Bahia em 1569, onde foi senhor de engenho e vereador.

Diálogos das Grandezas do Brasil (1618), atribuídos a Ambrósio Fernandes Brandão, cristão-novo que morou em Pernambuco (1583) e foi capitão contra os franceses. Demonstra grande afeição pelo Brasil e faz críticas às atividades predatórias dos portugueses.

História da América Portuguesa (Lisboa,1730), de Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), historiador e poeta que estudara em Coimbra. Foi senhor de engenho e vereador na Bahia; mostra ufanismo em relação à terra e apresenta alguns traços barrocos.

Literatura dos Viajantes

É constituída por textos dos viajantes que passaram pelo Brasil e escreveram suas impressões de forma isenta, sem nenhuma preocupação de agradar. O mais conhecido desses é Meu cativeiro entre os selvagens do Brasil (Hessem, 1557), de Haus Stadeu.

Esse alemão ficou prisioneiro dos tupinambás, durante muito tempo, a espera de ser devorado. Seu livro relata os costumes indígenas e a pirataria dos franceses nas costas brasileiras. História de uma viagem feita à Terra do Brasil (1578) foi escrita pelo calvinista Jean de Lery e descreve, também, os costumes dos tupinambás.

Literatura de Catequese

Os jesuítas vieram para o Brasil com o objetivo de expandir a fé católica entre os índios. Seus textos foram escritos com a intenção de catequizar os índios, além de reforçar, nos colonos, a moral cristã. Aqui eles tinham o monopólio da educação e ensinavam tanto aos índios como aos filhos de colonos. Escreveram poesia de devoção, teatro de caráter pedagógico, com cenas baseadas em trechos bíblicos, e cartas informando aos superiores, na Europa, sobre o seu trabalho no Brasil.

Diálogo sobre a conversão dos Gentios (1557), do Padre Manuel da Nóbrega.

História do Brasil (1627), do frei franciscano Vicente do Salvador, que relata nossa história até o século XVII.

Teatro, cartas e poesias de José de Anchieta (1524-1597). Seus poemas seguem a tradição medieval do teocentrismo, assim como os outros encenados à beira-mar por jesuítas, colonos e índios. Escreveu, também, a primeira gramática do tupi-guarani, verdadeira cartilha para o ensino da língua dos nativos (Arte da Gramática da Língua, a mais usada na costa do Brasil).


Atividades
 

Das árvores agrestes do Brasil

“Há, no Brasil, grandíssimas matas de árvores agrestes, cedros, carvalhos, vinhaticos, angelins e outras não conhecidas em Espanha, de madeiras fortíssimas para se poderem fazer delas fortíssimos galões e, o que mais é, que da casca de algumas se tira a estopa para se calafetarem e fazerem cordas para enxárcia e amarras, do que tudo se aproveitam os que querem cá fazer navios e se pudera aproveitar el - Rei se cá os mandara fazer. Mas os índios, naturais da terra, as embarcações de que usam são canoas de um só pau, que lavram o fogo e o ferro; e há paus tão grandes que ficam depois de cavadas com dez palmos de boca de bordo a bordo, e tão compridas que remam a vinte remos por banda”.
Salvador, Frei Vicente, de História da custódia do Brasil. In.Candidi
Antônio e Castelo, José Aderaldo.Presença da Literatura Brasileira.
4ª ed. SP, Difel,1971.vol.1,p.47

Enxárcia: escada para se alcançar o topo do mastrto nos navios à vela.
Um só pau: uma única árvore.
Bordo: cada um dos lados do navio.

1- Transcreva palavras ou frases do texto que caracterizem:
a) uma informação à metrópole;
b) o valor histórico;
c) a exploração do material;
d) o assombro do europeu diante do novo mundo.

2- Carta a El - Rei Dom Manuel sobre a achamento do Brasil
(Fragmentos)

“Senhor, posto que o capitão-mor desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova que se ora nesta navegação achou, não deixarei também de dar disso minha conta...
E assim seguimos nosso caminho por este mar, de longo, até terça-feira d’oitavas de Páscoa, que foram 21 dias d’abril, que topamos alguns sinais de terra.(...) E à quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves, a que chamam fura-bruxos. E neste dia, a horas de vésperas, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente dúm grande monte, mui alto e redondo, e dóutras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs o nome o Monte Pascoal e a terra, a Terra de Vera Cruz.(...)
E dali houvemos vista d’homem, que andavam pela praia, de 7 ou 8, segundo os navios pequenos disseram, por chegarem primeiro.(...) A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como tem em mostrar o rosto.(...)
O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestido, com um colar d’ouro mui grande ao pescoço. Acenderam tochas e entraram e não fizeram nenhuma menção de cortesia nem de falar ao capitão nem a ninguém. Um deles, porém, pôs olho no colar do capitão e começou d’acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata. Mostraram-lhes um papagaio pardo, que aqui o capitão traz, tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como que os havia aí. Mostraram-lhes um carneiro, não fizeram dele menção. Mostraram-lhe uma galinha, quase haviam medo dela e não lhe queriam pôr a mão, e depois a tomaram como espantados.”
Caminha, Pero Vaz. Carta a El.Rei D.Manuel e notas de M. Viegas Guerreiro
Lisboa, Imprensa Nacional,1974

Como Caminha vê o nativo em seu aspecto físico e em sua relação com a
natureza?

3- Nos fragmentos apresentados, há indícios da preocupação portuguesa com a exploração material da terra? Indique o trecho em que isto fica claro.

4- Destaque um assunto do texto apresentado que o caracterize como literatura informativa.

5- O século XVI marca, na Europa, o Renascimento; na literatura portuguesa, esse período é conhecido como Classicismo, pois é todo voltado para a cultura clássica de Grécia e Roma. A partir do quadro apresentado, responda:

a) Podemos falar em Renascimento no Brasil do século XVI? Justifique.

b) Comente a seguinte afirmação de Osvald de Andrade, poeta modernista, autor do Manifesto da poesia Pau-Brasil: “Contra a fatalidade do primeiro branco aportado e dominando diplomaticamente as selvas selvagens. Citando Virgílio para tupiniquins. O bacharel.”

6- No modernismo brasileiro de 1922 (e, depois, no movimento tropicalista de Caetano e Gil), temos uma retomada do século XVI, uma tentativa de redescoberta do Brasil. Osvald de Andrade, por exemplo, reescreve trechos da carta de Caminha, dando-lhes forma poética; Murilo Mendes revê a história do Brasil com toques de ironia. Leia atentamente o seguinte texto, de Murilo Mendes, e comente sua visão do século XVI.

A carta de Pero Vaz

A terra é mui graciosa,
Tão fértil eu nunca vi.
A gente vai passear,
No chão espeta um caniço,
No dia seguinte nasce
Bengala de castão de oiro.
Tem goiabas, melancias,
Banana que nem chuchu.
Quanto aos bichos, tem-nos muitos,
De plumagens mui vistosas.
Tem macaco até demais
Diamantes tem à vontade
Esmeralda é para os trouxas.
Reforçai, senhor, a arca,
Cruzados não faltarão,
Vossa perna encanareis,
Salvo o devido respeito.
Ficarei muito saudoso
Se for embora daqui

7- A literatura dos jesuítas está diretamente ligada à:
a) Revolução de Avis, ocorrida em Portugal no final do século XVI;
b) Política de D. Manuel, o Venturoso;
c) Criação da Companhia de Jesus e a Contra-Reforma;
d) Descoberta do caminho marítimo para as índias;
e) Casta de Pero Vaz de Caminha.

8- “Os primeiros escritos de nossa vida documentam precisamente a instauração do processo: são ........................................................... que viajantes e missionários europeus colheram sobre a ............................................. e o ........................................................ brasileiro. (Alfredo Bosi)
a) informação - indústria - comércio
b) análises - agricultura-comércio
c) história - realidade - passado
d) informação - natureza - homem
e) análises - mulher - clima

9- A respeito da carta de Caminha, podemos afirmar:
a) Não há preocupação com a conquista material.
b) A única preocupação era a catequese dos índios.
c) É representativa do pensamento contra-reformista.
d) Apresenta tanto preocupação material quanto espiritual.
e) Não cita, em momento algum, os nativos brasileiros.

10– (VFPA) - A gênese da nossa formação literária se encontra no século XVI. Dela fazem parte:
a) as obras produzidas pelos degredados que eram obrigados a se instalar no Brasil.
b) os escritos que os donatários das capitanias hereditárias faziam ao rei de Portugal.
c) o relato dos cronistas viajantes.
d) as produções arcádicas.
e) as poesias de Gregório de Matos.

 


Desenvolvido por Roberto de Avila Zamoner - © 2007 Roberto de Avila Zamoner