Conhecimentos Gerais de Filosofia
 
ÍNDICE
   
A Filosofia
O Nascer da Filosofia
O Amadurecimento da Filosofia
A Razão
A Filosofia ganha seu espaço
Características da Filosofia
O Conhecimento Filosófico

A Filosofia

A palavra filosofia tem um significado muito especial, que é desconhecido pela maioria e que, no entanto, nos ajuda a entender a sua função na história humana.

Em termos muito gerais, filosofia vem do grego e quer dizer apego ao conhecimento (filo=amor / sofia=conhecimento). Mas este apego ao conhecimento também pode ser entendido como uma vontade, que é própria do ser humano, em tentar entender e explicar tudo o que está à sua volta, assim como o ar fresco matinal, as árvores pequenas e grandes, os riachos que fluem, as pedras que ficam paradas, ou as que rolam morro abaixo em tentar entender e explicar o objeto mais difícil e interessante de todos, que é a própria figura daquele que pensa sobre tudo isso, o homem.

Às vezes, notamos que queremos entender tudo e nos intrigamos com o porquê das coisas serem da maneira que são e não de outra forma. De modo que a pergunta que inicia todo o processo do pensar sobre o mundo e sobre nós mesmos pode ser representada da seguinte maneira: "Por que (tal coisa) deve ser assim?". Podemos substituir esta "tal coisa" por algum objeto que nos interessa e, então, nos percebemos ignorantes sobre as causas da maioria dos fenômenos ao nosso redor, por exemplo, "Por que tenho que trabalhar?" ou "Por que meu trabalho deve ser assim?" ou ainda "Por que preciso ganhar dinheiro?" e assim por diante.

Mas por que pensar sobre coisas que parecem tão firmes e consolidadas no mundo, como o trabalho, ou o dinheiro, ou as árvores, ou mesmo sobre o ser humano? Não seria uma grande perda de tempo parar para pensar quando poderíamos estar agindo, trabalhando, nos divertindo?

Alguns pensam que sim, que realmente é uma perda de tempo e que é melhor agir do que pensar - estes são popularmente conhecidos como pessoas de ação ou pessoas práticas. Outras, no entanto, acreditam que se sentiriam melhor em não fazer nada sem antes um demorado estudo, uma longa análise da situação para que possíveis erros de operação possam ser mais facilmente evitados - estas são conhecidas como pessoas de reflexão.

Contudo, se pensarmos melhor, vamos observar que ambas (tanto as pessoas práticas como as pessoas de reflexão) pensam e agem ao mesmo tempo. As pessoas práticas não são como robôs que apenas agem, apenas obedecem ordens e realizam funções de maneira vazia; há sempre nelas uma reflexão, há sempre um pensamento que fundamenta a sua ação, mesmo que esse pensamento seja: "É melhor agir do que pensar". Por sua vez, as pessoas de reflexão não estão em estado de repouso absoluto. Ao pensar, seu corpo também está agindo de diversas maneiras, escrevendo, olhando, cheirando, ouvindo, andando etc. Além disso, o próprio pensar pode ser encarado como uma ação, como um movimento invisível aos olhos humanos e que pode ocorrer dentro da cabeça, como acreditam certos cientistas; mas há outros que acham que este movimento pode ocorrer no coração, como os apaixonados; e há outros ainda que acreditam que este movimento pode estar no estômago que ronca, como quando se está com fome.

Os filósofos, em sua maioria, são comumente considerados mais como pessoas de reflexão do que de ação, ainda que essa reflexão também seja uma ação, como acabamos de ver. Quando pensamos neles, percebemos que o seu apego ao conhecimento, este desejo incontrolável de perguntar "Por que (tal coisa) deve ser assim?", a sua vontade de conhecer, entender e ser capaz de explicar, deu início a uma série de pensamentos a respeito da natureza de muitas coisas que perduram desde há muito tempo (mais ou menos 2400 anos) e que fizeram com que a sociedade humana se modificasse, para o bem ou para o mal, por meio da ciência, da história, da arte e da religião.

O homem nunca mais foi o mesmo desde que começou a se perguntar sobre o porquê das coisas, suas causas, sua natureza, sua origem e seu fim. Na filosofia, muitas vezes chegamos à conclusão de que as perguntas sobre as causas das coisas, ou sobre a natureza delas, são mais importantes do que qualquer resposta que se possa encontrar, na medida em que as respostas podem ser muito diferentes umas das outras, dependendo das pessoas, dos povos, das culturas - contudo, a vontade de querer saber é a mesma em todos os seres humanos e é isto que vale a pena.

O desejo de conhecer que se manifesta com a pergunta "Por que (tal coisa) deve ser assim?" é o motor, a mola que move o pensar filosófico. Sem este desejo, provavelmente, não haveria pensamento e não haveria ação, não haveria trabalho e não haveria dinheiro e, muito provavelmente, o ser humano já não existiria mais como o vemos nos dias atuais.


O Nascer da Filosofia

Como vimos, as pessoas têm se perguntado o porquê das coisas serem de tal maneira desde o início do pensamento, desde o início da história humana. Porém, antes mesmo que a filosofia pudesse formular qualquer investigação sobre a natureza, a origem e o fim das coisas que existem, das que vemos e das que não vemos, outras tentativas de encontrar respostas foram executadas.

Nestas épocas longínquas do passado humano, havia uma filosofia nascente, isto é, havia o ímpeto de se querer fornecer respostas aos eventos do mundo. Mas este ímpeto estava misturado ao medo de que talvez esta busca por respostas fosse um erro terrível. Este suposto erro estava associado à crença de que o mundo, assim como tudo que nele havia, tivesse uma posse divina e que, portanto, seria uma espécie de afronta a Deus (ou, no caso da Grécia Antiga, aos diversos deuses que eram venerados) desfrutar, ou tomar para si, algo que não lhe tinha sido dado espontaneamente. No caso, o conhecimento.

Por causa deste receio, ou respeito, que a figura humana mantinha diante de suas divindades, que se personificavam na natureza - como os ventos (Eolos), os mares (Posseidon), o Sol (Apolo), a uva (Dioniso), os relâmpagos (Zeus) -, as respostas que se obtinham estavam relacionadas com a presença, ou não, nestas divindades de um determinado tipo de humor de espírito. Assim, por exemplo, se estava ventando, era porque Eolos, o deus dos ventos, estava a soprar; se os mares estavam bravios, era porque Posseidon estava irritado; se alguém fosse atingido por um relâmpago, era porque Zeus estava a se divertir um pouco com os mortais na Terra.

Este tipo de resposta, depois, ficou conhecida como mítico-religiosa. Isto significa que se usava da mitologia, das histórias muito antigas sobre as diversas personalidades divinas e seus vários feitos, unidas aos cultos religiosos précristãos, para se explicar o destino humano na Terra. Assim como na Grécia (Europa), outras localidades no mundo também construíram suas próprias mitologias, como a Índia e a China, os povos africanos, aos quais nós devemos o culto a alguns de seus deuses (Orixás), assim como também todas as culturas indígenas nas Américas.

Por meio deste tipo de resposta, percebemos que os eventos estavam associados diretamente à vontade e ao humor dos deuses. Estes eram dotados de formas e personalidades bastante humanas de modo que podiam se divertir em festas, se casar, fazer amor entre si e com mortais na terra, ter filhos com deuses e com mortais, sentir ciúmes, ter inveja, roubar, matar, provocar guerras, mentir, governar, destruir, espalhar doenças, curar etc. Podia-se encontrar qualquer característica humana na figura de divindades. Isto tornava a vida bastante complexa quando se queria saber por que a colheita não tinha vingado ou por que não chovia naquela determinada estação do ano ou por que a embarcação ficava à deriva, sem os ventos necessários para a empurrar, ou por que, por vezes, estes ventos eram tantos que simplesmente a afundavam. Ou ainda, simplesmente, por que o sol se levantava no horizonte oriental, trazendo consigo a luz benéfica da manhã, e se punha na borda ocidental da Terra arrastando, atrás de si, as trevas da noite.

Temerosamente, mas ainda de maneira determinada, o ser humano queria tomar para si um pouco deste controle divino sobre os elementos, sobre a chuva, sobre o sol, sobre o ar, sobre a terra, sobre os mares etc. Iniciaram-se, então, os cultos religiosos, que tinham por função acalmar a ira de um deus específico, deixá-lo contente com o seu povo, pedir-lhe algum tipo de favor na colheita ou na guerra, ou simplesmente alertá-lo para a existência da miséria humana. Não raras vezes esses cultos religiosos eram iniciados ou finalizados com sacrifícios de animais e, em alguns casos, de pessoas também.

Algumas vezes, esses cultos eram verdadeiras festas, onde havia muita carne, pão e vinho, como os cultos a Dioniso. Também chamados de orgias, esses cultos terminavam com todos os seus participantes literalmente inconscientes, geralmente no meio de alguma floresta, seja por causa do vinho tomado em muita quantidade, seja por causa da exaustão física causada pela dança ou pelo sexo praticado em abundância entre eles. Outros deuses exigiam cultos secretos, solenes, com a participação de apenas alguns poucos sacerdotes que obedeciam a um rigoroso ritual, muitas vezes triste e mórbido, e com sacrifício de sangue.

Isto parece muito estranho nos nossos dias, ainda mais quando se sabe que esses cultos faziam parte da vida religiosa de muitos povos; porém,era assim que, de maneira comum, se vivia na antiguidade da humanidade, quando o ser humano se empenhava em conquistar um espaço maior na natureza, de início tentando seduzi-la para, posteriormente, conquistá-la e subjugá-la.


O Amadurecimento da Filosofia

A partir do momento em que a filosofia começou a amadurecer no mundo ocidental, e isto se deu na Grécia Antiga, lá pelos séculos V e IV a.C., as explicações sobre os eventos, sobre os fenômenos, sobre as causas e fins da existência adquiriram um novo formato, um novo perfil. As explicações baseadas nos humores divinos começaram a ser deixadas de lado em favor de um tipo totalmente novo de argumentação. Este novo tipo de argumentação tinha por base o uso pleno da famosa Razão Humana - e esta tinha por uma das características deixar os deuses de lado quando o assunto exigisse algum tipo de reflexão do pensamento.

Mas o que houve, de fato, para se abandonar um tipo de explicação para se adotar outro? O que levaria pessoas fiéis, tementes e crédulas, a se arriscarem desta maneira, a ofenderem suas divindades, isolando-as como figuras exclusivamente decorativas, sem função explicativa, e sem poderes extra-humanos? Em outras palavras, o que leva a crença à descrença? Do uso exclusivo da Fé ao uso exclusivo da Razão?

Como veremos mais adiante, não há uma única resposta a estas perguntas; no entanto, podemos resumir muitas delas de maneira razoável dizendo que havia uma insatisfação humana muito grande com relação ao controle do mundo quando este ainda era governado pela vontade divina. Ou seja, as pessoas percebiam que seus cultos, sacrifícios, orações e rituais muitas vezes não conduziam aos resultados esperados. Não importa muito por quais íntimas razões os deuses não queriam atender a todos os pedidos que lhe eram feitos. O importante mesmo é que havia um grande desejo de manipular, de controlar, de obter um poder antes exclusivamente divino.

Mas, para começarmos a entender o que é isto que os gregos antigos entendiam por Razão, este instrumento suficientemente poderoso para substituir os deuses, tomando o seu lugar nas alturas como um único, novo e poderoso deus, vamos relembrar duas histórias míticas pertencentes a dois povos diferentes, mas que, no entanto, apontam para o mesmo sentido.

A primeira história mítica a conhecemos muito bem, é a do povo judeu e fala a respeito dos primeiros momentos da existência do universo. Trata-se da história contada no livro Gênesis na Bíblia.

Como sabemos, segundo este livro, após Deus ter criado a Terra, dando forma a ela, feito a luz etc, achou Ele por bem criar o homem e a mulher para que nela habitassem e lhes deu poder sobre todos os outros seres que nela existiam. Contudo, a serpente, com intenções malignas, acabou por tentar Eva e esta, por sua vez, tentou Adão para que comesse o fruto da árvore que estava no meio do jardim do Éden e que tinha por nome "Árvore do conhecimento do bem e do mal". Ato feito, instantaneamente tomaram conhecimento de sua situação e sentiram vergonha dela - imediatamente Deus os amaldiçoou terrivelmente e os expulsou de seu Paraíso para que também não comessem do fruto da "árvore da vida" e se tornassem iguais a Ele. Além disso, o próprio Deus disse a Eva que tornaria a sua gestação dolorosa e condenou Adão a sempre ter que ganhar o pão com o suor do seu rosto.

A segunda história mítica é a do povo grego e talvez seja tão antiga quanto a que acabamos de ler. Trata-se da história de uma das divindades gregas conhecida pelo nome de Prometeu e a conhecemos, principalmente, pela Tragédia Grega (peça de teatro de cunho trágico) "Prometeu Acorrentado" de Ésquilo.

Segundo esta história, houve um tempo na Terra em que os homens se assemelhavam em muito ao restante dos animais, pois não tinham o Fogo para se esquentarem, para cozinharem seus alimentos, para se protegerem ou para os diversos fins aos quais o fogo se presta. Um belo dia, o Titã Prometeu, um ser divino aparentado com os deuses do Olimpo, ou por se compadecer da miséria dos humanos ou para brincar com Zeus, o pai e chefe de todos os outros deuses, resolveu roubar-lhe o fogo e entregá-lo às pessoas lá embaixo, na Terra, para que dele fizessem uso.

Ao tomar conhecimento da zombaria e ousadia de Prometeu, Zeus mandou acorrentá-lo no alto de um rochedo com correntes que nunca se partiriam para que todo dia um abutre viesse e devorasse um pedaço do fígado do infeliz Titã. Este, por ser um imortal, teria que sofrer por toda a eternidade já que seu fígado todo dia se recuperaria para que o abutre viesse devorá-lo novamente. Mas a história ainda não acaba aí.

Percebendo, porém, que os humanos já dominavam o uso do fogo e poderiam começar a fazer frente aos deuses, Zeus achou por bem enviar-lhes um presente ambíguo, duvidoso. Enviou Zeus, aos homens, a mulher Pandora que, por ser muito atraente, jamais seria por eles recusada; ela trazia consigo uma pequena caixa que, quando aberta, espalharia por toda a Terra os mais diversos males, como pragas, doenças, dores de todo o tipo, sofrimentos de amor, chagas, pestilências, infortúnios, tristezas etc.

Como vemos, as duas histórias parecem ter um fim infeliz para o time dos mortais, no qual nós estamos incluídos.


A Razão

Já tivemos a chance de conhecer um pouquinho das histórias que são contadas a respeito de deuses e pessoas, tudo para tentar entender melhor o que é isto chamado Razão. Mas não tivemos chance de compará-las efetivamente. Ao que tudo indica, as duas histórias, sem levar em consideração se realmente aconteceram ou não, podem ser encaradas como maneiras de se falar a respeito de como os humanos, homens e mulheres, abandonaram um tipo de pensamento para se concentrarem em um outro tipo. Isto é, como passaram do uso exclusivo da fé para o uso exclusivo da Razão, com o objetivo de criarem suas explicações para o que acontecia na superfície do mundo.

Na mitologia judaica, a serpente corporifica a figura do diabo, que tenta causar danos às criaturas de Deus. Ao que parece, ela obteve êxito, pois fez com que Adão e Eva fossem expulsos do paraíso quando comeram do fruto da árvore do conhecimento. O argumento utilizado pela serpente para que ambos quisessem comer deste fruto, apesar das ordens expressas de seu criador em contrário, era de que, ao fazê-lo, Adão e Eva poderiam saber tanto quanto o próprio Deus. Rapidamente, Ele não permitiu que suas criaturas também comessem do fruto da árvore da vida para que não se tornassem seus iguais, expulsando- os e fazendo com que eles, seus filhos e netos, sofressem o destino de viverem na Terra com dores e trabalho.

Nesta história, o fruto da árvore do conhecimento representa a Razão, que o homem obtém por uma mentira maligna de quem lhe queria mal. Neste caso, a Razão é encarada como uma coisa má, como uma praga que fez com que o homem fosse expulso do Paraíso e jogado numa vida de labuta e sofrimento. Nós, os herdeiros deste homem, também somos herdeiros desta praga e devemos, segundo esta história, carregar o peso da Razão sobre os nossos ombros. O conhecimento, neste caso, parece ter trazido mais prejuízo que lucro.

Esta história é uma metáfora, uma maneira indireta de dizer que foi um erro abandonar a antiga maneira de conduzir as coisas pela nova. Os pensamentos, a Razão, seriam frutos malignos que poderiam nos fornecer um certo poder na Terra, mas que cobraria um preço demasiadamente alto por isso. Devemos lembrar que estamos analisando estas histórias de acordo como elas se apresentam a nós, sem deixar que nossas próprias crenças pessoais interfiram em nossos julgamentos a respeito delas.

Já na mitologia grega, a história de Prometeu nos conduz a um resultado muito semelhante. Ainda que não fosse com intenções malignas, a Razão, representada agora pelo fogo, nos foi presenteada por um ser com poderes superhumanos, um imortal, sem a autorização de seu legítimo dono, Zeus. O resultado disso também foi prejudicial. Zeus, com medo de que a zombaria tornasse a repetir-se, castigou Prometeu terrivelmente e presenteou os homens com dores e sofrimentos na forma da beleza feminina: Pandora.

Podemos notar que este segundo final possui a mesma moral que a da primeira história, ou seja, na história de Prometeu também foi um erro abandonar a antiga forma de pensamento, de explicações, de crenças, por novos. No primeiro mito, o ser humano surrupiou o conhecimento, adquirindo a Razão de maneira impetuosa e, ainda que sendo enganados, tiveram que arcar com as conseqüências. Já no segundo, os seres humanos nem sequer agiram, apenas receberam um presente e com ele também uma série de terríveis punições. No primeiro caso há um crime a ser punido, a Razão é roubada; no segundo caso há apenas o destino que se aceita, um destino amargo e inevitável da perda da fé.

Tivemos que falar um pouquinho sobre estas histórias para poder abrir caminho para o que se pode entender por Razão. Logo, Razão significa, entre muitas outras coisas, um esforço, uma capacidade, uma habilidade, conquistada ou simplesmente recebida da natureza, para assimilar, refletir e explicar os eventos naturais externos e internos a cada um, em particular, e a todos de maneira geral. Mas para muita gente Razão significa apenas a capacidade de pensar sobre as coisas ao nosso redor sem, necessariamente, se apelar para explicações sobrenaturais, como deuses, diabos etc.

Desta forma, a Razão, de um jeito ou de outro que a entendamos, parece se opor ao que compreendemos por Fé, crença, estado de espírito, sentimentos, desejos e muitas outras possíveis situações da alma humana. É claro que nem todos abandonaram as explicações religiosas pelas explicações racionais, muitos de nós mantemos a nossa fé. Quando falamos que o homem, o ser humano, ou as pessoas do mundo trocaram as explicações supersticiosas pelas de cunho científico, por meio do uso da Razão, estamos nos referindo àquelas pessoas que detém o poder de governar o planeta e fazer valer a sua opinião acima das opiniões de outras pessoas que muitas vezes somam a maioria.


A Filosofia ganha seu espaço

A filosofia, portanto, ganha importância e assume definitivamente o seu papel dentro da sociedade antiga, mais precisamente na Grécia dos séculos VIII a.C., quando a maioria decide que explicações baseadas no pensamento racional são melhores, ou mais convincentes, que as de origem mitológicas ou supersticiosas. O uso da Razão é, assim, a coluna central na edificação do conhecimento ocidental desde o seu nascimento com a filosofia até os dias em que nos encontramos atualmente.

Nesta sociedade grega antiga, a filosofia reunia para si todos os assuntos importantes e era impensável que ela não existisse. Ao contrário dos dias de hoje, em que parecemos não conseguir encontrar uma boa razão para o emprego da filosofia, nos séculos em que o pensamento ocidental florescia, o papel prático da filosofia era inquestionável. Ela estava encarregada de avaliar, discutir, investigar e fornecer respostas para praticamente tudo que era considerado importante. Por exemplo, a filosofia tinha a função de sugerir as leis do Estado, explicar os eventos físicos da natureza, estabelecer as regras de comunicação por meio da linguagem, sugerir o que poderia ser considerado bonito ou feio e, até mesmo, compreender o fenômeno da vida e da morte sob os diversos aspectos metafísicos.

As profissões que hoje conhecemos, como a de professor, médico, político, governante, cientista e sacerdote, se concentravam na figura do filósofo e este havia de conhecer todas estas funções e desempenhá-las tão bem quanto sua época assim o exigisse. Mas a preocupação principal do filósofo naqueles tempos era com o ensino. Todos os filósofos possuiam discípulos que ficavam honrados em aprender as diversas artes - como a oratória, a retórica, a lógica, a matemática, a astronomia, a música, a política e, é claro, a filosofia, que reunia, sob este título, estes e todos os demais conhecimentos.

Talvez os três filósofos mais importantes que viveram entre os séculos V e III a.C. tenham sido Sócrates, Platão e Aristóteles. Se voltássemos no tempo para este período, conheceríamos um sujeito de barba e toga que perambulava e falava pelas ruas da cidade de Atenas, acompanhado de uma porção de ouvintes atentos, que concordavam instantaneamente com tudo o que ele dizia, além de outros que, furiosamente, tentavam contradizer as suas palavras. Este era Sócrates, que se preocupava principalmente em estabelecer, por meio do discurso, as bases do que seria realmente o Bom, o Belo, o Justo, o Certo etc., por oposição ao que ele acreditava ser o Mau, o Feio, o Injusto, o Errado etc.

Sócrates se empenhava, principalmente, em estabelecer tudo isto para que ficasse claro que havia uma coisa chamada "Verdade", e que esta coisa chamada "Verdade" era o que, acima de tudo, deveríamos buscar em nossas vidas. Deveríamos buscar a "Verdade" mais do que buscaríamos o ouro e a prata, mais do que buscaríamos as conquistas e as vitórias, mais do que buscaríamos a honra e a virtude, mais do que buscaríamos os amores e as paixões. Assim sendo, a "Verdade" se aproximaria mais de um bem divino que humano e quanto mais se achegasse dela o homem, mais próximo dos deuses ele se encontraria.

Platão foi, dos discípulos de Sócrates, o mais famoso deles, pois se encarregou de escrever os muitos debates filosóficos que seu mestre travara com diversas outras pessoas que tentavam sempre colocar seus pontos de vista contrários sobre a "Verdade". Platão herdou o discurso filosófico de Sócrates, mas também inseriu nele as suas próprias ideias, as suas próprias opiniões acerca da música, das artes em geral, acerca da política, do estado, dos reis e assim por diante. Umde seus maiores projetos era convencer os governantes de que, para melhor governar, era necessário que estes tivessem a filosofia como mestra. Para isto escreveu um livro chamado de "A República", no qual tenta estabelecer de que forma seria um governo e um Estado ideal.

Assim como Sócrates, Platão também estava preocupado com a educação e fundou a sua "Academia", uma espécie de escola onde se podia aprender praticamente todas as áreas em que o conhecimento se espalhava. Seria mais ou menos como a nossa atual universidade, porém, na Academia de Platão, o uso da matemática e da geometria era considerado como uma ferramenta necessária para o pensamento. Tanto era assim que havia uma inscrição no alto da entrada da Academia alertando para que ali não entrasse quem não soubesse geometria.

Um dos alunos da Academia de Platão fora Aristóteles, que muito contribuiu para a maneira como encaramos a vida atualmente. Aristóteles escreveu vários livros a respeito dos mais diversos assuntos. O conjunto de sua obra trata das regras do discurso, da lógica (Organon), trata dos eventos naturais do mundo físico (Física), trata da classificação e história dos seres vivos (De Anima), também trata das especulações filosóficas propriamente ditas (Metafísica), chegando a tratar da conduta humana e da política (Ética a Nicômaco) e, por fim, tratou, também, das artes em geral (Poética), indo da comédia à tragédia nas artes dramáticas.

Mais adiante, verificaremos mais detalhes a respeito das construções teóricas de cada um destes importantes autores e como essas construções influenciaram toda a filosofia ocidental posterior assim como, também, as ciências em geral.


Características da Filosofia

Com Sócrates, Platão e Aristóteles, a filosofia ganhou algumas características que se fixaram, transformando-se na marca de discurso racional até os dias de hoje. O que isto quer dizer é que, se possuímos algo que se chama razão e se a exercitamos por meio de uma investigação crítica do pensamento, então, esta investigação, este pensamento crítico sobre o que quer que seja, deverá possuir, em algum grau, essas características. Vejamos quais são:

  • Racionalização: O pensamento filosófico, a compreensão do mundo segundo a Razão, não deve possuir qualquer traço supersticioso ou de crença pessoal que, como vimos, ficou para trás, seja para melhor, seja para pior. O discurso racional também não pode ser influenciado pelas emoções, por gostos particulares, por medos, impulsos etc. A pergunta que nos resta é se um ser humano seria capaz de deixar todas estas coisas de lado para pensar de maneira racional. Em outras palavras, seria alguém capaz de ser puramente racional?

  • Demonstração: Todas as explicações filosóficas, racionais portanto, deverão possuir provas; ou seja, elas devem ser acompanhadas por justificativas ou por testemunhos que não deixem que sobrem dúvidas sobre a verdade do que foi dito. Tanto melhor será o discurso racional quanto mais provas sobre aquilo que ele afirma existir ou não existir ele trouxer consigo. Assim sendo, a filosofia rejeita os discursos sem sustentação, aqueles que são afirmados como boatos ou como mostras de uma crença ou opinião particular.

  • Discussão: É essencial para a filosofia que tudo o que seja pensado possa ser colocado a público e submetido às críticas. É necessário que haja debate sobre as ideias, só assim se pode perceber suas falhas e corrigi-las. Muitas vezes, acreditamos que nosso discurso está perfeitamente racional, que não foi influenciado por crenças nem por emoções de qualquer tipo, ou ainda que está perfeitamente demonstrado, mas, quando colocado num debate, não resiste quase nada às críticas dos outros. Só então se pode notar que não estávamos percebendo um erro, uma falha, que outros perceberam rapidamente.

  • Método: Tudo o que vem a ser conhecido deve ser conhecido a partir de uma maneira pré-estabelecida. O que isto quer dizer é que se deve tentar evitar o acidental nas investigações racionais, na medida em que o que o acidental nos traz como conhecimento algo que dificilmente pode ser provado. Assim, para evitá-lo, faz-se necessário uma organização prévia do pensamento antes de pôlo realmente em prática; isto se faz estabelecendo um método, uma prática, que é mais ou menos como regras de como deverá acontecer qualquer investigação.

  • Universalização: É universal aquilo que é comum a todos, ou seja, aquilo sobre o que todos concordam ou aquilo que todos aceitam porque é extremamente óbvio ou porque não há formas de recusar. Por exemplo, é universal o conhecimento de que todos os seres vivos necessitam de oxigênio, de que o número 2 pode ser obtido pela soma de 1 e 1 ou de que qualquer triângulo possui três lados. Assim também ocorre em filosofia, suas ideias primárias devem ser de comum aceitação para que se possa dar início a uma investigação que, muitas vezes, leva a afirmações não tão fáceis de aceitar ou menos óbvias.

De maneira geral, todos estes cinco critérios para o pensamento racional já eram conhecidos há 2400 anos e ainda continuam a valer nos dias de hoje. Sem obedecê-los, muito do que dizemos em certos lugares perde o valor - na verdade, se queremos nos fazer realmente convincentes em um mundo que se pretende racional, então tudo que tentamos conhecer e explicar deve ser conhecido e explicado seguindo estes cinco pontos. Dependendo da maneira como o fazemos, se bem ou se mal, então tanto mais ou menos verdadeiro, supõe-se, será o que dizemos ou deixamos de dizer.

No dia-a-dia, na feira, na casa de um amigo, no trabalho, quase nunca empregamos um pensamento tão sistematizado assim. Geralmente falamos fornecendo nossa opinião particular, sem provar nada, sem querer ouvir críticas, sem pensar a respeito antes e sem estar de acordo com outras pessoas. E ainda bem que é assim, já que, se tivéssemos que seguir estas regras toda vez que fôssemos falar qualquer coisa, então quase nada poderíamos dizer e tudo se tornaria um pouco difícil e chato. Contudo, na filosofia, é imprescindível que estes critérios sejam respeitados e é isto que torna o discurso filosófico pouco atraente e distanciado da maioria.


O Conhecimento Filosófico

Para iniciarmos nosso caminho na estrada que leva à investigação crítica da filosofia, temos que saber um pouco de como, passo a passo, o conhecimento foi se modificando no decorrer da história. É preciso saber como a filosofia foi se estruturando na medida em que os diversos pensadores foram tomando conhecimento dos trabalhos uns dos outros, criticando-os, fazendo sugestões, tendo ideias.

É difícil imaginarmos que o conhecimento filosófico, desde a época de Sócrates, Platão e Aristóteles, tenha aumentado ou diminuído. Geralmente pensamos apenas que ele se modificou, adquirindo elementos novos e perdendo outros tantos na mesma medida. Isto acontece porque não tratamos o conhecimento filosófico como, por exemplo, tratamos o conhecimento sobre as diversas tecnologias.

Explicando melhor, é fácil percebemos a melhora que ocorre nas modificações que os engenheiros fazem nos carros de ano para ano, ou nos computadores, ou nas televisões, ou nos aviões etc. Simplesmente porque eles são capazes de aperfeiçoar peças, tirar erros de projeto, melhorar o desempenho geral e assim por diante; estes engenheiros são capazes de acumular um saber específico sobre um determinado ponto e, assim, a sua bagagem teórica e prática cresce sem nunca diminuir. Percebe-se, assim, porque uma lâmpada projetada nos dias de hoje não pode ser inferior, ou de igual qualidade, à primeira lâmpada inventada na história.

Já na filosofia as coisas mudam um pouco de figura. O saber que os filósofos acumulam é de ordem histórica; sabemos quem foi Sócrates, sabemos de suas ideias, onde viveu a maior parte de sua vida, de que maneira morreu etc. Porém, há algo que não se pode acumular e que é vital para se ser um bom pensador. Este algo é a capacidade de saber lidar com a informação que se recebe de modo a fazer dela algo novo, um conhecimento crítico.

Desta maneira, muito raramente temos, nos dias de hoje, o mesmo tipo de produção filosófica com a qualidade extremamente inovadora como foi a de 2400 anos atrás. Estamos acostumados a pensar que o tempo presente e o futuro sempre trazem coisas melhores, mais aperfeiçoadas. Mas podemos perceber que, pelo menos em filosofia, esta não é uma regra geral. É claro que, nos dias de hoje, raramente encontramos alguém com as mesmas ideias de Platão ou de Aristóteles, em suas peculiaridades, porém as linhas gerais que estes pensadores tornaram públicas nos seus trabalhos possuíam tanta originalidade, tanta criatividade, que ainda são bastante atuais nos dias de hoje.

Percebemos que o que torna a filosofia um conhecimento diferente da maioria é que ela possui um movimento dinâmico, extremamente complexo, de ida e volta às suas raízes. Na verdade, ela nunca esquece o seu passado, as suas origens, e está sempre tentando mostrar coisas que os antigos filósofos não eram capazes de perceber; porém esta é uma tarefa difícil na medida em que os filósofos, em sua maioria, antecipam essas críticas e criam sistemas de pensamento quase indestrutíveis.

No centro da filosofia, mais do que o saber histórico, que também possui a sua devida importância introdutória às questões pertinentes ao conhecimento prático, está a capacidade criativa do pensador. Esta capacidade criativa será diferente de um para o outro, porém ela sempre existe e é ela que nos faz inventar perguntas dos mais diversos tipos, é ela que nos move a pensar, é ela que nos impulsiona a explicar as coisas, a criar maneiras e sistemas de compreender o mundo.

Só assim, dentro de nós, sentimos uma espécie de contentamento, uma saciedade que é muito parecida com a saciedade que sentimos depois de comer. Assim como a fome, a ignorância sobre determinado assunto também nos faz sentir um pouco vazios e este vazio nos faz querer buscar algo que o preencha. Uma vez preenchidos, nos sentimos bem, porém, mais tarde, aparecerá uma nova dúvida, uma nova pergunta que pedirá mais uma resposta num processo sem fim. Como a fome pede um alimento para o corpo, a ignorância nos faz querer um alimento para o espírito, para a inteligência; no entanto, este sempre precisará de mais e mais para se tornar cada vez mais forte, mais crítico. Todavia, exatamente como a fome extrema, também a ignorância extrema nos deixa fracos e preguiçosos intelectualmente; deixamos de querer saber para ficarmos parados e quietos, enquanto nosso espírito definha.

A conclusão a que chegamos a este respeito é a de que o espírito, a mente, deve ser bem alimentado para que cresça forte e desenvolva esta bela qualidade intrinsecamente humana: a capacidade de pensar por si mesma. Só assim se exercita a habilidade crítica, que é inata a todos, mas que está dormente, subnutrida, em muitos que não tiveram acesso à informação. Uma vez desenvolvida, ela nunca pára de crescer e de dar frutos. Estes frutos são as ideias originais como foram, por exemplo, as de Sócrates, Platão e Aristóteles. Por sua vez, estes frutos serão o alimento filosófico para os que vêm depois e que possam estar famintos por conhecimento.


Desenvolvido por Roberto de Avila Zamoner - © 2007 Roberto de Avila Zamoner