O Primo Basílio
Eça de Queirós
 
ÍNDICE
   
A segunda metade do século XIX: Portugal
A "Questão Coimbrã"
O Realismo-Naturalismo
Eça de Queirós e a "bengalada do homem de bem"
O enredo de O primo Basílio: "pequeno quadro doméstico lisboeta"
O foco narrativo
As personagens centrais
Personagens secundárias: entre elas, tipos impagáveis
O estilo
Atividades

A segunda metade do século XIX: Portugal

Para entender-se uma obra como O primo Basílio, é preciso conhecer as circunstâncias históricas da época em que foi escrito e em que seu autor viveu. E para melhor entender o contexto histórico de Portugal da segunda metade do século XIX, é mister conhecer um pouco de sua história.

O reino português surgiu do Condado Portucalense, território localizado entre os rios Minho e Tejo. No ano de 1143, com o reconhecimento de Leão e Castela, estabelece-se o Reino de Portugal, sob o cetro de Afonso Henriques de Borgonha, seu primeiro rei.

Portugal manteve-se como nação independente até perder sua autonomia política para a Espanha, em 1580. Foram sessenta anos de cativeiro, em que o povo português se uniu em torno do mito sebastianista — a crença no retorno de D. Sebastião, que resgataria a dignidade do país — e da saudade das grandezas do passado, conquistadas além-mar — e enfeixadas em Os lusíadas, de Camões, transformado, nessa fase, em "Poema da Raça Portuguesa", em "Hino Nacional" da pátria lusa.

Nem mesmo com a Restauração, em 1640, e a independência e autonomia que ela significava, a nação pôde recuperar a grandeza e o brilho anteriores: Portugal havia perdido parte de seu império e as esperanças, agora, voltavam-se para o Brasil. Com a invasão das tropas napoleônicas, em 1808 a família real vem para o Brasil, e a metrópole se vê na humílima condição de "colônia da própria colônia", sob o comando de um inglês — Beresford. Essa situação dura até 1820, quando a

Revolução do Porto convoca a Assembleia Constituinte e D. João VI volta ao país.

A Independência do Brasil agravaria a situação político-econômica do reino que, em 1823, vê um golpe militar reinstalar o absolutismo, dissolvendo o Parlamento e suspendendo a Constituição. Após um período de turbulências, em que o país passa pela guerra civil provocada pelos irmãos Miguel e Pedro, na briga pelo trono (1832-1834), e depois pela coroação de uma rainha de apenas 15 anos — D. Maria — Portugal se acha empobrecido e atrasado em relação à Europa, agora já francamente engajada no processo de industrialização e economicamente próspera.

O período conhecido como Regeneração (1851-1910) traria alguma estabilidade e certo desenvolvimento. Desencadeado pelo golpe militar do marechal Saldanha, esse período implementou a adesão do país ao capitalismo, com o revezamento, no poder, de um partido político mais conservador — o Regenerador — com outros menos conservadores: o Histórico, o Reformista e o Progressista. Portugal assistiu, então, a uma certa prosperidade no meio rural, ao par do enriquecimento do comércio urbano e das finanças. Essas mudanças determinaram o crescimento da burguesia rural que, enriquecida, vai para a cidade em busca do progresso e dos melhoramentos e passa a valorizar a vida cultural e a educação de seus filhos. Além da Universidade de Coimbra, a nação contava agora com as Escolas Médicas de Lisboa e Porto, o Curso Superior de Letras de Lisboa e a Escola Politécnica. Aumenta o consumo de jornais e o romance conhece um período de verdadeiro desenvolvimento, impulsionado pelo interesse desse novo público leitor.

No entanto, a crise que o país atravessa ainda é grave e, embora tenha conhecido, no período, uma certa estabilidade, vê-a definhar, em face de suas dificuldades estruturais de Economia. E contempla uma Europa renovada no plano político, social, econômico e cultural. Não apenas contempla, mas se vê invadido pelas novas conquistas do velho mundo, já que uma juventude operosa e inteligente está atenta àquilo que lhes chega — em 1864 Coimbra se liga à rede europeia de caminho-de-ferro —, principalmente, da França. O surgimento de uma evolução tecnológica e, por decorrência, cultural, tende a esvaziar os ideais românticos que prevaleceram por quase 40 anos.

Portugal assenta-se, incomodamente, numa situação que privilegia o processo oligárquico, com tendências conservadoras, o que impede a visão de novos horizontes sócio-político-culturais.

É nesse ambiente que floresce a "Geração de 70", influenciada pelos modelos franceses buscados em autores como Balzac, Stendhal, Flaubert e Zola.

Os jovens acadêmicos portugueses absorvem as teorias emergentes, tais como o Determinismo de Taine, o Socialismo "utópico" de Proudhon, o Positivismo de Auguste Comte, além do Evolucionismo de Darwin, entre outras novidades no campo das Ciências e da Filosofia.

Nesse cenário, um acontecimento é marcante: a Questão Coimbrã.


A "Questão Coimbrã"

Chama-se Questão Coimbrã à polêmica literária que opôs os jovens revolucionários realistas de Coimbra e os defensores da tradição romântica de Lisboa.

Em Lisboa, o veterano Antônio Feliciano de Castilho escreve um posfácio à obra Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, seu discípulo das letras. Esse posfácio ataca violentamente o ideário da "Geração de 70".

Instaura-se, abertamente, a rivalidade. De Coimbra, Antero de Quental, jovem líder do grupo que se opõe a Castilho, contra-ataca com o opúsculo intitulado Bom-Senso e Bom-Gosto, em 1865, no qual assim se dirige ao velho Castilho:

"... eu hei de sempre ver uma péssima ação, digna de toda a importância dum castigo, nas impensadas e infelizes palavras de V. Exa., dignas quando muito dum sorriso de desdém e do esquecimento. E se eu nem sequer me daria ao incômodo de erguer a cabeça de cima do meu trabalho para escutar essas palavras, entendo que não perco o meu tempo, que sirvo a moral e a verdade, censurando, verberando a desonesta ação de V.Exa."

Estava deflagrada a Questão Coimbrã, que se tornou também conhecida como Polêmica do Bom-Senso e Bom-Gosto e foi responsável pela introdução do Realismo-Naturalismo em Portugal. Eça de Queirós não participou da polêmica, embora estudasse Direito em Coimbra.


O Realismo-Naturalismo

O Realismo-Naturalismo implica o distanciamento da postura subjetiva para o escritor, que se volta para a realidade exterior e não usa mais sua vida pessoal como ponto de partida para a criação da obra de arte. O interesse, agora, é pelo objeto externo, e não mais pelo sujeito.

Ocorre, assim, o aprofundamento da narrativa de costumes que já se cultivara no Romantismo e que se propõe, a partir daqui, a desnudar as mazelas da vida pública e os contrastes da vida íntima, buscando, para ambas, causas naturais ou culturais. É preciso compreender e explicar o mundo real por meio da razão e do conhecimento científico. É necessário o embasamento, o apoio de teorias que auxiliem essa explicação.

Várias foram as correntes científicas que serviram como estofo à obra de arte realista-naturalista. Entre elas, cabe destacar:

  • o Determinismo de Taine, segundo o qual o Homem — e seu comportamento e, portanto, a Arte — está condicionado a três fatores: a herança (determinismo biológico ou hereditário); o meio (determinismo social ou mesológico) e o momento (determinismo histórico);

  • o Positivismo de Auguste Comte, que defende a existência da razão e da ciência como fundamentais para a vida humana, pregando uma atitude voltada para o conhecimento positivo, concreto e objetivo da realidade;

  • o Criticismo e o Anticlericalismo de Renan, que prega uma revisão do papel histórico da igreja católica, apontando-a como "mistificadora da verdadeira fé";

  • o Socialismo "utópico" de Proudhon, que propõe a organização de pequenos produtores em associações de auxílio mútuo, calcado em ideias antiburguesas e anti-religiosas;

  • o Evolucionismo de Darwin, que concebia o mundo como um processo de crescimento e de evolução e cuja repercussão provocou enorme revolução em outras ciências, inclusive as sociais.

Esse conjunto de ideias acabou por caracterizar a chamada "geração do materialista ou cientificista", assim designada pela semelhança entre as atitudes dos autores e dos cientistas.

O escritor, movido por sua preocupação com a objetividade, tende a compreender o homem — aqui, a personagem — como um "caso" que deve ser analisado à luz da ciência. A intensificação radical da abordagem científica na obra de arte acabaria por conduzir ao Naturalismo, que considera o homem como uma máquina dirigida por leis físicas e químicas, pela hereditariedade e pelo meio social, dirigindo seu interesse, principalmente, para temas da patologia humana e social.

As características comuns ao Realismo e ao Naturalismo podem ser assim esquematizadas:

  • objetividade: exame da realidade exterior ao indivíduo, realidade captada pelo artista sem o intermédio da imaginação e do sentimentalismo;

  • racionalismo: a inteligência é entendida como único meio para a compreensão da realidade objetiva;

  • universalismo, impessoalismo: busca da verdade universal, impessoal, captada pelos sentidos e pela inteligência, e só aceita quando passível de ser testada, examinada, experimentada;

  • arte compromissada, engajada: crítica, análise e denúncia da sociedade; preocupação e compromisso com a transformação social;

  • contemporaneísmo: arte voltada para o seu próprio tempo, para os problemas de sua época;

  • antiburguesismo, anticlericalismo, antitradicionalismo, antimonarquismo;

  • preocupação formal: busca de clareza, de equilíbrio, de concisão no estilo, enxuto e limpo;

  • lentidão da narrativa: descrições minuciosas, morosas, pormenorizadas das personagens, o que coloca o plano da ação e da narrativa em segundo lugar;

  • linguagem predominantemente denotativa, com privilégio da metonímia em detrimento da metáfora;

  • exaltação sensorial, linguagem sinestésica: só é verdadeiro o que pode ser captado sensorialmente.

Embora fossem contemporâneos e muitas vezes se tenham "interpenetrado", o Realismo e o Naturalismo apresentaram diferenças no enfoque dado ao tratamento dos assuntos e características próprias.

No Realismo, observa-se a "humanização" das personagens, agora "de carne e osso" e não mais divididas entre heróis incríveis e terríveis vilões. Entre outros, destacam-se os seguintes traços:

  • psicologismo: análise psicológica das personagens, esféricas, dinâmicas;

  • "humanização" das personagens: a mulher, geralmente adúltera e pecaminosa; o homem, fraco e covarde;

  • enfoque da burguesia como classe social;

  • fotografia objetiva da realidade;

  • romance de "interpretação aberta", deixando ao leitor a tarefa de tirar suas próprias conclusões.

Já o Naturalismo promove, muitas vezes, a "zoomorfização" das personagens, degradadas à categoria de animais sem drama moral, movidos por instinto. Vale destacar as características a seguir:

  • abordagem científica da sociedade e dos atos humanos, com o privilégio dos aspectos doentios, patológicos, defeituosos e o afastamento do psicologismo e da profundidade realistas, a fim de examinar o plano científico e biológico;

  • personagens degradadas, párias da sociedade, vistas como "produto da raça e do meio", não raro sublevadas à categoria animal, agindo por instinto, num processo conhecido como zoomorfização das personagens, através de comparações entre o homem e o animal;

  • exame das classes inferiores, do proletariado, dos marginalizados;

  • enfoque dos aspectos torpes e degradantes da realidade;

  • romance de tese, experimental, calcado na experimentação científica, com preocupação social e política.

Na obra de Eça de Queirós, encontram-se elementos e características tanto da estética realista, quanto da naturalista; essa é a razão por que a crítica aplica, a ele, a denominação relista-naturalista. Cabe, no entanto, lembrar que o próprio Eça nunca fez diferenciação entre as duas denominações, empregando-as indistintamente.


Eça de Queirós e a "bengalada do homem de bem"

José Maria Eça de Queirós nasceu em Póvoa do Varzim, em 1845. Faleceu em Paris, no ano de 1900.

Viveu os anos de sua formação distante dos pais, que só se casaram quatro anos depois de seu nascimento, tendo deixado o filho, primeiramente, aos cuidados da ama que o recebera no mundo e, depois, com os avós paternos. Embora nunca se tenha pronunciado a respeito das circunstâncias de seu nascimento ilegítimo e do afastamento dos pais — com quem só moraria depois de formado, e por algum tempo —, alguns biógrafos supõem estarem essas entre as possíveis explicações para a constante crítica à hipocrisia e às convenções sociais que se podem observar em sua obra.

Estudou Direito em Coimbra e participou ativamente do processo de implantação do Realismo em Portugal, mesmo não tomando parte na Questão Coimbrã: integrou o Grupo do Cenáculo, liderado por Antero de Quental, e, durante as Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, proferiu a conferência "A Literatura Nova ou O Realismo como Nova Expressão da Arte". Foi, também, o autor do primeiro romance realista português, O crime do padre Amaro, de 1975.

Formado em 1866, aos 21 anos, Eça muda-se para a casa dos pais, disposto a iniciar a carreira literária e também a de advogado. Um ano depois, segue para Évora e lá dirige um jornal político. Em 1869, assiste à inauguração do canal de Suez e viaja pelo Oriente. Retorna a Portugal e passa um curto período em Leiria como administrador. Entra no serviço diplomático através de concurso e serve, sucessivamente, em Cuba, na Inglaterra e, a partir de 1887, em Paris, o centro da intelectualidade da época. Só foi reconhecido como filho legítimo aos 40 anos, pouco antes de casar-se, aos 41, com Emília de Castro Pamplona.

Um dos maiores prosadores da língua portuguesa, Eça de Queirós cultivou o romance, o conto, o jornalismo, a literatura de viagem e a hagiografia, tendo-se realizado notavelmente nos dois primeiros gêneros.

Dedicou-se com afinco à arte da palavra, sempre e obsessivamente em busca de uma perfeição que o içaria à condição de um dos maiores estilos da língua. Sobre a arte afirmou, em 1886:

"A Arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da vida — que é ser não apagada de todo pela morte.

A Arte é tudo porque só ela tem a duração — e tudo o resto é nada!"

O estilo de Eça de Queirós é marcado pela naturalidade, pela fluência e precisão, pela oralidade antideclamatória e por uma ironia sutil, o que faz resultar a criação de uma nova linguagem literária, inusitada e vigorosa. Ao longo da evolução de sua obra, evidenciam-se três fases.

A primeira é a fase de iniciação literária, em que se observam ainda resíduos do Romantismo, como o clima fantasioso e a linguagem lírica, doce, suave. Pertencem a ela o romance O Mistério da Estrada de Sintra, escrito colaboração com Ramalho Ortigão e Prosas bárbaras. Nota-se nesse período a forte influência do romântico francês Victor Hugo.

A segunda fase apresenta os três "romances de tese" de Eça: O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias. É a fase da crítica social e da adesão às ideias realistas, em que o autor, comprometido com a realidade do seu tempo, propõe-se a uma arte transformadora da sociedade, engajada no combate às instituições da época, como a burguesia, a monarquia, o clero, numa postura iconoclasta e irreverente.

Nesta fase, Eça se propõe, conforme revela em carta a Teófilo Braga, a "pintar a sociedade portuguesa, tal qual a fez o Constitucionalismo desde 1830, e mostrar-lhe, como num espelho, que triste país eles formam — eles e elas."

Na mesma carta, afirma que personagens como Luísa, a protagonista de O primo Basílio, e as outras, que formam as bases falsas da sociedade, "são bem bonita causa de anarquia no meio da transformação moderna; merecem partilhar com o Padre Amaro da bengalada do homem de bem."

A terceira fase corresponde à maturidade intelectual de Eça e apresenta obras de caráter construtivo, permitindo evidenciar-se uma concepção de vida mais ampla e humanitária; trata-se de um período otimista, de esperança, marcado pelo idealismo espiritualista e pelo culto dos valores da alma e da fé. São obras representativas desta fase A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras.

Além das citadas, vale lembrar, ainda, as seguintes obras de Eça de Queirós:

  • romance: O mandarim; A relíquia; A capital; A correspondência de Fradique Mendes, O Conde de Abranhos, Alves e Cia.

  • conto: destaque para os contos: "Civilização"; "Suave Milagre"; "O Defunto"; "José Matias"; "Perfeição"; "Singularidades de uma Rapariga Loura".


O enredo de O primo Basílio: "pequeno quadro doméstico lisboeta"

O tema da obra é a sociedade lisboeta da época, e, mais especificamente, a família lisboeta, com todas as características presentes na classe burguesa. De acordo com o autor, este romance não critica a instituição familiar em geral, mas a família lisboeta, pois

[...] apresenta, sobretudo, um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa; a senhora sentimental, mal-educada, nem espiritual (porque cristianismo já não o tem; sanção moral da justiça, não sabe o que isto é), arrasada de romance, lírica, sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular, que é ordinariamente a luxúria, nervosa pela falta de disciplina moral etc., etc. [...]

A "senhora sentimental, mal-educada", a quem Eça se refere, é Luísa, a protagonista da história, embora a personagem-título do romance seja Basílio, seu primo e amante.

Narrada em terceira pessoa, a história se passa em alguns meses, com uma retrospectiva, logo no início, a qual apresenta os antecedentes dos acontecimentos e situações que comporão a narrativa.

A ação tem início no princípio de uma tarde de Domingo, com a introdução de duas das personagens centrais: Luís e seu marido Jorge:

"Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luís Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:

— Tu não te vais vestir, Luísa?

— Logo.

Ficara sentada à mesa a ler o Diário de Notícias, no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soutache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras [...]

Tinham acabado de almoçar."

O fragmento acima inicia o romance bem à moda realista-naturalista, à qual é caro o descritivismo, já que se pretende retratar a realidade objetivamente.

Logo após a cena inicial, há um recuo no tempo: a narrativa volta ao passado para informar ao leitor que Luísa tem vinte e cinco anos e está casada há três com Jorge, que é engenheiro de minas. Jorge fora o único filho de uma senhora "muito apreensiva", viúva muito cedo, que criara o filho sozinha, naquela mesma casa em que ele e Luísa agora moravam. Da mãe Jorge herdara a placidez e a mansidão; do pai, a robustez e os hábitos viris. Era metódico e caseiro, absolutamente cioso de seus valores morais. Casara-se com Luísa pouco depois da morte da mãe, desistindo, por isso, de ir morar na casa de seu amigo Sebastião. A respeito do enlace, Sebastião dissera, na época:

"— Casou no ar! casou um bocado no ar!"

A narração volta ao presente e Luísa chama a atenção do marido para uma notícia que acabara de ler: estava de volta a Lisboa, por aqueles dias, depois de longa ausência, o senhor Basílio de Brito. Reclama, também, da criada Juliana, a quem ela detesta.

Jorge sai e Luísa, sozinha, lembra-se da notícia sobre Basílio: reinicia-se a retrospectiva, desta vez para informar que o marido não fora seu primeiro namorado. Luísa envolvera-se aos dezoito anos com um primo, Basílio, por quem se julgara loucamente apaixonada; acontecera durante um verão, em Sintra, e o namoro continuou depois em sua casa, na Rua da Madalena, em Lisboa, "no sofá da mamã". Como o pai de Basílio vai à falência, este embarca para o Brasil, a fim de fazer fortuna. Depois de um ano, escreve a Luísa, rompendo o namoro, e ela sofreu durante meses.

Três anos depois conhecera Jorge e casara-se com ele sem amá-lo. Seus sentimentos modificam-se, porém, com a convivência:

"Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre; pôs-se a adorá-lo. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas coisas, mexia-lhe no cabelo, na roupa, nas pistolas, nos papéis. Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho nele."

Jorge e Luísa não têm filhos; vivem na casa apenas com as duas criadas que lá trabalham: Joana, a cozinheira, alegre, generosa, namoradeira e sensual, e Juliana, solteirona, amarga e revoltada, a quem Luísa detesta mas não pode despedir, pois servira dedicadamente uma tia de Jorge. A volta ao passado é interrompida pela visita de Leopoldina, antiga amiga íntima de Luísa, que Jorge não suporta, por ser uma mulher de má fama. Conversam e ela conta a Luísa sobre seu novo amante, um estudante. Jorge volta e, informado por Juliana, repreende a mulher por causa da visita de Leopoldina.

Aos domingos, o casal costuma receber, para uma cavaqueira, uma pequena reunião, alguns amigos mais chegados:

  • Sebastião Vasconcelos, o melhor amigo de Jorge, um "verdadeiro aldeão" em plena Lisboa, uma alma sã e generosa;

  • Julião Zuzarte, médico primo de Jorge;

  • Conselheiro Acácio, velho amigo do pai de Jorge;

  • Ernesto Ledesma, o Ernestinho, primo de Jorge, funcionário da alfândega que escreve para o teatro;

  • D. Felicidade, solteira de cinqüenta anos, que fora grande amiga da mãe de Luísa e é apaixonada pelo Conselheiro Acácio.

Neste Domingo, Ernestinho conta sobre um drama de adultério que está terminando de escrever; instado a pronunciar-se sobre o destino que se devia dar à adultera, Jorge é enfático:

"[...] Sou pela morte. Sou inteiramente pela morte. E exijo que a mates, Ernestinho!"

[...]

— Mata-a! É um princípio de família. Mata-a quanto antes!"

Por força de compromissos profissionais, Jorge viaja para o Alentejo. Doze dias depois, ociosa, enfadada, Luísa resolve ir visitar Leopoldina. Está-se arrumando, quando Juliana anuncia a visita de um "janota": é Basílio.

A visita deixa Luísa encantada, pois Basílio, entusiasmado com a beleza da prima, envolve-a sedutoramente em relatos de viagens que fizera e de sociedades "chiques" que freqüentara. Volta várias vezes, traz-lhe presentes, toca piano, canta músicas sensuais, fala-lhe de pessoas ilustres e geralmente acrescenta, de modo sugestivo, ao falar de uma mulher fina, que ela "tinha, naturalmente, o seu amante..."

Luísa é fraca de físico e de caráter. Ociosa, fascinada por viagens, leitora contumaz e ávida de romances românticos, acaba cedendo às investidas do primo, hábil conquistador. No entanto, a constância das visitas já despertara a atenção da vizinhança e Sebastião se vê obrigado a alertar Luísa.

Basílio alugara, para os encontros dos dois, um quarto barato, num prédio pobre, em uma bairro vulgar, afastado e repugnante de Lisboa, a que chamara, ironicamente, de "Paraíso". Apesar da frustração de seus sonhos de requintes e da decepção com o lugar, Luísa dirige-se para lá todos os dias, o que chama outra vez a atenção dos vizinhos. Constrangido, Sebastião fala com ela sobre as saídas diárias, e ela diz que está cuidando de D. Felicidade, que se encontra enferma.

Aliviado, o amigo trata de espalhar a novidade e os vizinhos passam a elogiar a atitude caridosa da "do engenheiro".

Após cinco semanas, Luísa começa a ressentir-se da crescente frieza de Basílio durante os encontros:

"[...] usava dela, como se a pagasse! Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lápis que ‘não podia ir ao Paraíso’, sem outras explicações! Uma ocasião mesmo não foi, sem a avisar, e Luísa achou a porta fechada. [...]

— Agora! Trocado o último beijo, acendia o charuto, como num restaurante ao fim do jantar! [...] Às vezes até olhava o relógio!... [...]

E depois positivamente não a respeitava, não a considerava... [...]"

Luísa começa a comparar o amante ao marido, e percebe o quanto se enganara com aquele caso: em três anos de casados, Jorge nunca se cansara dela, nem ela dele.

Admirada, conclui que fora a curiosidade que a impelira para o primo e entende, pela primeira vez, por que Leopoldina troca tanto de amantes: para manter acesa a chama da novidade. Recebe carta de Jorge e deixa de ir um dia ao Paraíso, mas Basílio escreve-lhe, pedindo perdão. Fraca como sempre, á impulsionada pelo desejo sensual e volta a encontrar-se com o primo.

Enquanto Luísa se entretém com seu amante e suas dúvidas, Juliana arma, ardilosamente e com a ajuda da inculcadeira tia Vitória, uma armadilha para extorquir dinheiro da patroa e finalmente obter o que chama de sua independência.

Rouba uma carta de Luísa para Basílio — que esta infortunadamente atirara ao lixo — e cartas de Basílio para Luísa.

Certo dia, Luísa chega a casa mais cedo, pois encontrara o Conselheiro Acácio e este a atrasara para o encontro; ao chegar ao Paraíso, Basílio já não estava. A casa ainda não está arrumada e, num acesso de fúria, Luísa despede Juliana que, lhe informa que "as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu aqui!" Luísa desmaia; começaria aí o seu longo período de sofrimento nas mãos da criada.

Desesperada, Luísa arruma as malas e vai para o Paraíso, disposta a fugir com Basílio. É, porém, dissuadida por ele, que argumenta que "fugir é bom nos romances" e que isso significaria a desonra dela. Humilhada, indignada, Luísa recusa a ajuda financeira que o amante lhe oferece: trezentos mil-réis.

Basílio mente que recebera um telegrama de Paris, reclamando por sua presença lá; chega mesmo a forjar o telegrama, para convencê-la. E parte covardemente, deixando-a só com o problema.

Não conseguindo falar com Basílio no hotel, porque ele já partira, Juliana investe contra Luísa, chantageando-a e exigindo seiscentos mil-réis pelas cartas. Luísa se desespera e tenta pedir a quantia a Sebastião, mas perde a coragem e dá a desculpa de que queria apenas notícias de Jorge. Sebastião diz que recebera duas cartas de Jorge e, atrapalhado, entrega a errada para Luísa ler: nela, Jorge confidencia aventuras amorosas para o amigo.

Luísa tenta desesperadamente conseguir o dinheiro: escreve uma carta a Basílio, mas não recebe resposta; compra bilhetes de loteria e faz promessas, sem resultados. Tenta vender as joias da mãe e descobre que elas têm pouco ou nenhum valor. Submete-se cada vez mais aos caprichos de Juliana e presenteia-a com roupas suas, para acalmá-la.

Jorge volta e Luísa mostra-se mais apaixonada do que nunca: ama-o numa espécie de êxtase febril e ansioso, valorizando cada momento que passam a sós. A princípio, tudo vai bem, pois Juliana parece satisfeita com sua nova condição e faz o serviço da casa com cuidado. Até na vizinhança se começa a comentar a boa vida das criadas da casa e Jorge chega a receber, espantado, cartas de pessoas oferecendo-se para trabalhar a seu serviço.

Luísa, cada vez mais explorada por Juliana, torna-se escrava da criada, enquanto esta leva vida de patroa. De frágil constituição, os maus tratos que sofre de Juliana logo lhe arrefecem o ânimo, minando-lhe a saúde.

Juliana sofre um ataque cardíaco e Jorge quer despedi-la, para que ela não morra em sua casa; no entanto, Luísa, com medo do que ela possa fazer, implora ao marido que a mantenha. Comovido, Jorge adia a decisão por quinze dias. Mas Juliana não morre e ainda exige que Luísa demita Joana, que a esbofeteara ao ouvi-la ofender Luísa.

Desesperada, Luísa arruma coragem e fala com Sebastião, que, armando uma cilada para Juliana, intentando levá-la presa, acaba por provocar-lhe um ataque e a morte.

É um novo tempo para Luísa, cercada do carinho de Jorge, Joana e da nova empregada, porém, tarde demais: enfraquecida pela vida que tivera de suportar sob a tirania de Juliana, é acometida por uma violenta febre.

Jorge cuida da mulher com carinho e dedicação, inclusive depois de abrir uma carta de Basílio — a resposta que Luísa tanto esperara — e ficar sabendo do adultério.

Não, tem, porém, forças para levar adiante sua abnegação: assim que Luísa melhora, Jorge, corroído pelo ciúme — e mesmo ciente de que a mulher não pode ter emoções fortes — mostra-lhe a carta de Basílio. Luísa grita e desmaia; a partir desse momento, não recupera mais totalmente a consciência.

Dilacerado pela dor, arrependido por ter causado a piora do estado de Luísa, Jorge, apesar de tudo, perdoa à mulher, mudando sua posição inicial quanto ao adultério.

Mas de nada adiantam os seus carinhos e cuidados, nem os dos amigos, nem o zelo médico — que chegou a raspar-lhe os longos cabelos — de que foi cercada. Luísa morre e o "lar formalmente feliz" se desfaz. Jorge fecha a casa e vai hospedar-se com Sebastião.

Na noite depois do enterro de Luísa, ao conversar com Julião, o Conselheiro Acácio fica sabendo que D. Felicidade recolhera-se ao Convento da Encarnação; mais tarde, ao terminar de escrever o necrológio de Luísa, é chamado pela criada, Adelaide, "para fazer nenê". Termina o necrológio animadamente e dirige-se para o quarto com ela, que estava meio cansada por causa do encontro com o outro amante, "o jovem e meigo Arnaldo".

Sentado numa cadeira na casa de Sebastião, Jorge soluçava e pensava em Luísa; o amigo, em seu quarto, chorava baixo; Julião lia, no Posto Médico; e "Leopoldina dançava numa soirée da Cunha".

O romance termina com a volta de Basílio e seu cinismo, ao saber da morte da amante por um vizinho: comenta com um amigo, o pedante Visconde Reinaldo que "antes tivesse trazido a Alphonsine", sua amante parisiense. Está pronto seu retrato de dândi.


O foco narrativo

A narração, em O primo Basílio, é feita em terceira pessoa e apresenta-se distribuída em duas modalidades que se alternam: a onisciência do narrador e a focalização interna das personagens.

O narrador onisciente assume o foco narrativo principalmente nas retrospectivas que explicam as situações do presente ou introduzem alguma personagem:

"Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãe fora engomadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, a quem chamavam na vizinhança — o fidalgo, a quem sua mãe chamava — o Sr. Dr. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no verão, no inverno de manhã, para a saleta onde sua mãe engomava, e ali estava horas sentado no poial da janela [...]"

A focalização interna corresponde à narrativa feita do ponto de vista da personagem; nessa modalidade, o narrador não interfere, a não ser para expressar juízos de valor, opiniões, e a história parece contar-se a si mesma, mostrando os acontecimentos ao leitor. Este é um recurso estilístico muito freqüente na obra de Eça de Queirós e permite ao leitor entender as eventuais contradições entre os pensamentos das personagens e seus atos. E, assim, a percepção do jogo de fingimentos e hipocrisias na vida em sociedade:

"Revia a pequenez do pé, pôs-se a fazer por ele o desenho mental de outras belezas, despindo-a, querendo adivinhá-la... A amante que deixara em Paris era muito alta e magra, de uma elegância de Tísica; quando se decotava viam-se as saliências das suas primeiras costelas. E as formas redondinhas de Luísa decidiram-no: [...]"

Os discursos da narrativa, por sua vez, também refletem essa preocupação do autor: predominam o discurso indireto livre e o discurso direto; aquele, por aproximar a expressão literária da língua falada e este, por permitir a exata reprodução das palavras ditas pelas personagens. Já o discurso indireto, embora ocorra, é mais raro: distancia-se da fala das personagens e implica o uso de verbos dicendi (dizer, falar, perguntar etc.), notoriamente rejeitados por Eça.


As personagens centrais
  • Luísa: personagem central da obra, domina a narrativa. É em torno dela que se constrói o triângulo amoroso. Teve educação viciada e viciosa; é fútil, vaidosa, preguiçosa, física e moralmente fraca. Como não tem força nem vontade própria, deixa-se conduzir como uma marionete, principalmente por Basílio e Juliana. Vive nas nuvens, lendo romances românticos e sonhando com uma existência aventureira e luxuosa: é incapaz de separar a realidade da fantasia. Sua degradação moral ao longo da história é, portanto, inevitável: ela não conseguiria deixar de degradar-se.

  • Basílio: personagem-título, é um dândi, conquistador e irresponsável, "bom vivant" pedante e cínico. Não mede as conseqüências do que faz, nem se importa com os sentimentos de quem quer que seja. Coleciona amantes e pretende-se de um "chique" cosmopolita. Preocupa-se exageradamente com as aparências e com seu vestuário: um janota legítimo.

  • Jorge: aspecto e hábitos viris, tem o gênio manso e plácido herdado da mãe. É, no entanto, inflexível quanto a aspectos morais e extremamente cioso e zeloso de suas obrigações profissionais. Sério, caseiro, reflete os padrões morais patriarcalistas da época, quando o adultério masculino não era considerado grave, ao contrário do feminino: tem aventuras amorosas durante a viagem ao Alentejo. Ama profunda e sinceramente Luísa, embora, enlouquecido pelo ciúme, tenha provocado a febre que lhe foi fatal. E é esse amor que motiva mudança em sua inflexibilidade moral: quando Ernestinho, já na enfermidade de Luísa, lembra seu discurso condenatório, Jorge apenas lhe responde que mudara.

  • Juliana: é, na opinião de Machado de Assis, a personagem de melhor recorte moral da obra, a mais bem construída. Representa a mulher do povo, que é humilhada em sua condição social e se revolta cada vez mais contra isso, alimentando um ódio profundo e crescente em relação aos patrões — principalmente as patroas. Sente-se escrava em sua situação e alimenta o sonho de mudá-la através de um dinheiro que lhe assegure a independência. Solteira, virgem, muito magra, nunca foi desejada por homem algum, a não ser um criado de cavalariça que um dia a olhara como um buldogue, de maneira animal. Recebeu, de um homem, o apelido de "Isca Seca", Sente imenso orgulho de seus pés, que sabe serem a única parte bonita de seu corpo, e coleciona botinas.


Personagens secundárias: entre elas, tipos impagáveis

Considerado, por muitos críticos, como um dos melhores romances de Eça de Queirós, O primo Basílio não é valorizado apenas pela análise critica da burguesia urbana e pela adesão do autor às convenções do Realismo: como todo grande escritor, Eça sempre esteve acima de qualquer convencionalismo estético. Mesmo sendo considerado melhor escritor do que ficcionista, conseguiu aliar o melhor do estilo da época à sua imaginação.

Apesar de dissecar a estrutura familiar, a obra não fora escrita com intenção de atacar a família — "instituição eterna", segundo o autor — mas sim a família lisboeta, a qual, segundo ele, era "produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem, e mais tarde ou mais cedo centro de bambochata", e que merecia, por isso, ser combatida em suas bases, o que Eça consegue levar a termo, principalmente na criação de tipos impagáveis e sempre atuais:

  • Conselheiro Acácio: tipifica o formalismo próprio da época, o falso moralismo, o apego às aparências. Amigo do pai de Jorge e padrinho do casamento, gosta de frases feitas e citações morais, mas, na vida privada, lê poemas obscenos de Bocage e mantém como amante a empregada, Adelaide, a qual, por sua vez, o trai com um caixeiro. É um dos tipos mais famosos da galeria queirosiana, e responsável pelos adjetivos "acaciano" e "conselheiral", usados quando se deseja aludir ao falso padrão moral de alguém.

  • D. Felicidade: fidalga, representa a alta sociedade lisboeta. Tem cinqüenta anos, é gorda, branca, sofre de gases. Extremamente católica, não dispensa uma bruxaria, para tentar fisgar o Conselheiro Acácio, por quem nutre uma paixão sensual. É uma personagem caricatural.

  • Sebastião: é o representante do bem e, por isso, contrasta com todas as outras personagens. É honesto, íntegro, simples, saudável, aberto. Rico, é modesto quando se fala em suas posses; amigo sempre presente, tenta de todas as maneiras evitar a difamação de Luísa e protegê-la de si mesma. Não a condena ao ouvir sua confissão de adultério, mas ajuda-a de maneira franca e diligente. Representa também o homem do campo, o proprietário rural, o que antecipa, de certa forma, a visão de Eça de Queirós em sua terceira fase, especialmente em A cidade e as serras.

  • Julião: é o intelectual positivista, o médico que luta para obter reconhecimento e um lugar ao sol. Revolta-se quando não tem seu valor reconhecido e sente inveja de Jorge por ter conseguido na vida o que ele não obteve.

  • Ernesto Ledesma: primo de Jorge, é um escritor vazio, preocupado com dramalhões românticos, os quais escreve para o teatro. Representa a "literaturinha acéfala", nas palavras do próprio autor.

  • Leopoldina: encarna o avesso da moral da época. Adúltera, escandaliza a toda a sociedade. Age conscientemente, possui vários amantes, representa a mulher decaída e seu comportamento aproxima-se do masculino: fuma, não quer ter filhos, detesta os padres. Sofria intimamente por não ter conseguido manter seus amantes no anonimato e ter perdido, por isso, o acesso à vida social mais refinada.


O estilo

Afirmam Saraiva e Lopes, estudiosos portugueses, sobre Eça de Queirós:

"Um dos dois ou três grandes artistas que mais modelaram a língua portuguesa, e pode dizer-se que de suas mãos saíram a técnica e os paradigmas estilísticos ainda hoje correntes na nossa língua literária".

Eça depura a linguagem, tira-lhe as rebarbas, os excessos. Valoriza a carga semântica. Dá à palavra a exata medida de seu conteúdo. Eça de Queirós soube utilizar o adjetivo — que tantas vezes empobrece, avilta e aniquila o estilo — como recurso indispensável da expressão. Por ele — o adjetivo — constitui uma unidade semântica indecomponível com o substantivo.

Para Eça de Queirós o adjetivo é, também, ferramenta de aproximação entre a abstração e a concretude: ao valer-se do epíteto no nome abstrato, consegue efeito surpreendente, como se vê nas passagens seguintes, com nosso grifo:

"— Oh Jorge, que calor que vai lá fora, santo Deus! — Batia as pálpebras sob a irradiação da luz crua e branca.

"Uma vaga poeira embaciava, tornava espesso o ar luminoso.

"Era na sala de baixo pintada a oca, que tinha um ar antigo e morgado;..."

Eça destrói de vez — porque Garrett e Camilo já o haviam iniciado — a linguagem rançosa, empolada, artificial do Romantismo. Impregna-se o texto queirosiano de uma plasticidade admirável e perfeita.

Os processos descritivos espaciais, em Eça, não são simples palcos em que se instalam os sujeitos do relato: integram o caráter, o perfil das personagens. Retorna-se ao aval de Saraiva e Lopes, que assim se manifestam: "...há uma interação entre o ambiente físico e o homem, de modo que aquele se descreve em termos da percepção humana variável, conforme as personagens e seus estados."


Atividades

1. (FUVEST)

“Luísa espreguiçou-se. Que seca ter de se ir vestir! Desejaria estar numa banheira de mármore cor-de-rosa, em água tépida, perfumada e adormecer! Ou numa rede de seda, com as janelinhas cerradas, embalar-se, ouvindo música! (...)

Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar ao aparador por detrás de uma compota um livro um pouco enxovalhado, veio estender-se na “voltaire”, quase deitada, e com o gesto acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a ler, toda interessada.

Era a “Dama das Camélias. Lia muitos romances; tinha uma assinatura,  na Baixa, ao mês.”

Neste excerto, o narrador de O Primo Basílio apresenta duas características da educação da personagem Luísa que serão objeto de crítica ao longo do romance.

a) Quais são essas características?

b) Explique de que modo elas contribuem para o destino da personagem.

(VUNESP)

Instrução: As questões seguintes referem-se ao seguinte fragmento do romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós.

“Jorge foi heróico durante toda essa tarde. Não podia estar muito tempo na alcova de Luísa, a desesperação trazia-o num movimento contraditório; mas ia lá a cadamomento, sorria-lhe, conchegava-lhe a roupa com as mãos trêmulas; e como ela dormitava, ficava imóvel a olhá-la feição por feição, com uma curiosidade dolorosa e imoral, como para lhe surpreender no rosto vestígios de beijos alheios, esperando ouvir-lhe nalgum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e amava-a mais desde que a supunha infiel, mas dum outro amor, carnal e perverso. Depois ia-se fechar no escritório, e movia-se ali entre as paredes estreitas, como um animal numa jaula. Releu a carta infinitas vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem cessar: Como tinha sido?Onde era o Paraíso? Havia uma cama? Que vestido levava ela? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava?”

in O Primo Basílio - Obras Completas - I.. Porto: Lello & Irmãos, s/d, p. 1150.

2. (VUNESP) No trecho apresentado, o narrador descreve as reações de Jorge, que vive num conflito íntimo entre a piedade e o ódio: temde cuidar da esposa Luísa, muito doente, embora tenha sabido que ela o traíra com Basílio. Nestas poucas linhas se podem perceber várias características da ficção realista. Aponte duas dessas características.

3. (VUNESP) Embora faça referência a três personagens, o narrador menciona nominalmente apenas Jorge e Luísa. Releia o texto e, a seguir:

a) aponte duas palavras por meio das quais, de modo explícito ou velado, o narrador se refere ao personagem Basílio;

b) explique o que representa, do ponto de vista de Jorge, a omissão do nome de Basílio.

4. (VUNESP)

“O emprego do adjetivo vago (e sinônimo) tão comum em O Primo Basílio, está relacionado a uma visão impressionista da realidade.” Explique a afirmação.

(in Eça de Queirós: O Senhor das Palavras. Anatomia das Letras. Vol 1. 1994. Reginaldo Pinto de Carvalho.)

5. Que expressões caracterizam tom depreciativo e depressivo na descrição do Paraíso?                                                                                               

6. Há uma razão para que o narrador utilize palavras estrangeiras no relato. Qual a finalidade desse emprego?

7. Na obra de Eça de Queirós, em questão, fica retratada uma parcela da sociedade de Lisboa. Que se retrata na obra?

8. Que tipo social é representado por Juliana?

9. O crítico Álvaro Lins faz a seguinte afirmação a respeito do estilo queirosiano: “Pode-se dizer que pelo estilo Eça está mais perto das gerações que não o conheceram. O estilo de Eça, tão moderno e tão de nossos dias, só se afasta de nós pelos constantes pontos de exclamação.” Qual a função do ponto de exclamação no texto de O Primo Basílio?

10. Afirma-se que Eça de Queirós associa um perfeito trabalho com a linguagem narrativa em prosa com a musicalidade da poesia. Que recurso de estilo, mais encontrado no verso é detectado no texto de O Primo Basílio?


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